Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Marcas
do rumo ao estado policial (Final)
René Ariel Dotti
Fragmentos da IV
Conferência da OAB-PR
“Não
hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois
esta é a licença e a liberdade que tem quem não pede favor
senão justiça”. A
frase sintetiza o pensamento e a ação do Padre Antônio Vieira
(Lisboa, 1608-Salvador, 1697), jesuíta, missionário, orador,
diplomata e imortal mestre da língua portuguesa clássica. Foi
com esta oportuna introdução que o Advogado Eduardo Rocha
Virmond iniciou o valoroso texto-denúncia, Rumo ao estado
policial, divulgado pela OAB-PR e que reproduz a sua
intervenção no painel realizado em 23 de junho deste ano, na
IV Conferência Estadual dos Advogados. O painel comemorou os
trinta anos da VII Conferência Nacional da OAB (Curitiba, 7/
12-05-1978), liderada por Raimundo Faoro e Eduardo Rocha
Virmond, presidentes, respectivamente, do Conselho Federal e
do Conselho Estadual.
O tema central
daquele antológico encontro – que antecipou medidas de
restauração da ordem democrática – foi o Estado de Direito,
reunindo teses de urgente reivindicação nacional, além de
painéis, entrevistas e outras formas de corajosas
manifestações dos causídicos brasileiros.
Há certos
aspectos de identidade entre os chamados anos de chumbo
(1964-1985) e os anos de contradição (1988-2008). Se
aqueles foram caracterizados pela violação aberta dos
princípios e das regras do Estado Democrático de Direito,
estes mostram o contraste entre as declarações de direitos da
Carta Política de 1988 e as práticas delituosas de abuso de
autoridade, com graves ofensas aos direitos da personalidade
(vida privada, intimidade, honra e imagem). No passado, o
abuso de poder e a ilegalidade eram manipulados para a
perseguição aos crimes políticos; no presente, os mesmos
desvios funcionais são cometidos para apurar crimes comuns e,
em especial, as infrações econômicas e financeiras. Daí a
certeira observação do ex-bâtonnier: “É preciso
sempre manter ativa a consciência crítica para evitar que as
forças obscurantistas, que se escondem como se fossem
vanguarda política, venham, outra vez, com outra roupagem, mas
com equivalente agressividade, tomar conta do Brasil, seja por
atos de supostas boas intenções, seja pelo que Célio Borja
chamou agora de ‘furor regulatório’, que está nos levando a um
estado policial”.
Em outra
passagem, Virmond indaga: “Melhoramos muito nos últimos
trinta anos? Até quando? Em outros aspectos estamos
mergulhando outra vez nas preciosidades da ofensa ao Estado de
Direito, tanto por parte de organizações clandestinas,
protegidas pela conivência de agentes do Estado, como também
por intimidações provocadas por autoridades públicas”.
O excepcional
relevo desse texto merece a maior difusão possível. É um
alerta indispensável para as gerações do presente e do futuro.
Afinal, quem
ignora a História está condenado a repeti-la.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 05.10.2008.
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