Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
A
missão criadora da jurisprudência (I):
René Ariel Dotti
A contribuição do
Desembargador Luiz Viel
A Associação dos Magistrados do Paraná prestou, nos
dias 14 e 15, sensível homenagem à memória do Desembargador
Luiz Viel (1936-1998), em um evento que reuniu ciência e
afeição, presente e passado. Compareceram os Ministros Felix
Fischer, Gilson Dipp e Arnaldo Esteves Lima, além de outros
magistrados, membros do Ministério Público, advogados e
estudantes. A AMAPAR, presidida pelo Desembargador Miguel
Kfouri Neto e tendo em seu Departamento de Cultura o Juiz de
Direito Luiz Fernando Tomasi Keppen, organizou um Congresso
representativo e de inegável relevo.
O homenageado foi um dedicado e competente membro do
Ministério Público, instituição que serviu com raro brilho por
muitos anos. Foi Juiz do Tribunal de Alçada e Desembargador no
Tribunal de Justiça de nosso Estado. Nos últimos anos exerceu
a advocacia com sensibilidade e ética. Personalidade invulgar,
talento fulgurante e notável condição humana foram algumas de
suas reconhecidas e admiradas virtudes.
Em
passagens doutrinárias e votos acolhidos pelos seus pares, o
Magistrado Luiz Viel ilumina os caminhos de seu pensamento e o
destino dos argumentos com as lições dos mestres da ciência
jurídica, nacionais e estrangeiros, e as alegorias de
escritores imortais.
A conduta dos protagonistas do processo penal –
o réu e a vítima – e o cenário por onde eles aparecem são
reconstituídos pela sensibilidade e o raciocínio do Juiz
humanitário. As circunstâncias do fato delituoso e a
demonstração da culpa ou as causas de exclusão do crime ou
isenção de pena, revelando a inocência, são transpostas da
frieza das folhas de papel que compõem o processo para a mente
e o coração de quem ouve e sente a sua palavra.
Demonstrando que a realidade do homem, da vida e do
mundo, se movimenta para muito além da régua e compasso das
equações algébricas, dos esquemas e dogmas científicos, os
artigos e os votos de Luiz Viel desvendam o universo da
Literatura, como expressão dos conteúdos da imaginação.
Surgem, então, para a melhor compreensão dos seres reais que
habitam os processos, os personagens de ficção retratados em
obras de Shakespeare, Dostoievski, Graciliano Ramos, Fernando
Pessoa e Umberto Eco. Nesse aspecto ele nos lembra os
Comentários ao Código Penal de Nelson Hungria. Nos mais
diversos e longínquos mundos da realidade e da imaginação dos
casos criminais, Hungria foi e continua sendo pela obra
imortal, o personagem, o ator e o espectador da divina
comédia da existência. Infernos, purgatórios e paraísos,
todos os cenários dantescos da vida cotidiana foram esculpidos
e interpretados em suas lições. Lembra também o imortal Enrico
Ferri e os seus Criminosos na arte e na literatura.
“A
vida dos mortos perdura na memória dos vivos”,
disse Marco
Túlio Cícero (106-43 a.C.) com a sabedoria que o tempo não
apagou.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 24.08.2008.
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