Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
O
tempo e o Direito na história da Faculdade (III - Final):
René Ariel Dotti
“Ensinar
Direito, em nosso tempo, significa ensinar a pensar”
Na
apresentação do álbum Faculdade de Direito, 1912–2000,
Universidade Federal do Paraná, organizado por Márcia
Dalledone Siqueira, o Diretor Alcides Alberto Munhoz da Cunha,
(1996-2000), escreveu: “A Faculdade de Direito nasceu com a
Universidade, sob a inspiração de idealistas paranaenses,
cujos nomes reverenciamos em nossas praças, avenidas, ruas de
Curitiba e de todo o Paraná, e nasceu para ser grande, para
difundir o conhecimento acadêmico, a pesquisa, a extensão e
contribuir para o progresso do Paraná – um Estado que se
destaca no cenário nacional como progressista, que se prepara
para ingressar no terceiro milênio da História com um acervo
de experiências e vivências em todas as áreas do conhecimento
científico, fincado basicamente nas experiências e vivências
proporcionadas pela Universidade Federal do Paraná”.
Essas
palavras são adequadas para introduzir uma das seqüências do
discurso de posse de Ricardo Marcelo Fonseca (11.07.08),
quando ele afirma que a tradição, em si mesma, não é o
bastante. Historiador do Direito, por formação acadêmica e
sensibilidade humana, o professor pondera que “o mero culto
ao passado, a mera elegia de efígies e repetidas homenagens
encomiásticas a nomes de outrora podem degenerar numa
museologia sem sentido, que, ao cultuar o passado, embalsama-o
e isola-o do presente, um presente que exige intervenção, um
presente que precisa, desesperadamente, olhar para si mesmo e
para o futuro”.
O conteúdo do
discurso de posse do novo diretor da Faculdade de Direito da
UFPR, revela não somente a aptidão para conhecer os problemas
específicos da instituição universitária, como também o
contexto nacional e mundial em que ela está inserida.
Daí a
importância de seu discurso: “Ensinar direito, nesse novo
tempo, por isso tudo, não pode ser mais a mera repetição e
exegese das leis e códigos, a mera acumulação vazia de saberes
– saberes que a galope estão sendo superados por outros. Hoje,
também no direito, cumpre-se a previsão de Marx e Engels feita
em 1848, segundo a qual ‘tudo
que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado’.
Hoje, a pura acumulação e memorização de saberes será tão vã
quanto o era para Irineu Funes, o memorioso, no célebre conto
de Jorge Luis Borges, que registrava e recordava cada
minúsculo detalhe e movimento do mundo que o envolvia, que era
capaz de catalogar as mínimas diferenças, e o ônus desse
registro incomensurável de dados acabava sendo para ele uma
pesada sina. Ao tanto registrar e recordar, Funes acabava se
mostrando incapaz de pensar. Nas palavras de Borges, ‘Pensar
é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair’. No
abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase
imediatos. Ensinar direito, no nosso tempo, significa ensinar
a pensar”.
É isso aí.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 03.08.2008.
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