Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Sermão da Páscoa - Ano 2007 :
René Ariel Dotti
O sermão é o discurso sobre tema religioso. A palavra e a idéia assumem elevação espiritual e dignidade própria dos atos litúrgicos. Assim, não há inconveniente em repeti-lo de tempos em tempos. É o que estou fazendo ao reproduzir a crônica já publicada nesta coluna, nessa mesma época do ano.
Existem afinidades muito nítidas entre os sentimentos de Justiça e de religiosidade porque ambos estão ancorados na fé, que é uma das virtudes teologais. Quando um cidadão comparece perante o Juiz ou Tribunal que irá decidir sobre seu interesse, ele está, invariavelmente, praticando a liturgia da fé. Não importa se ele é um homem de bem ou um malfeitor, inocente ou culpado. Ele tem a esperança, ou seja, a fé em obter uma sentença.
A Páscoa é a festa da ressurreição de Cristo, como esperança da humanidade. Nesse dia o trabalhador forense dá lugar ao orador sacro, missionário e diplomata português que veio ao Brasil ainda criança. A família escolheu a cidade de Salvador, então capital da Colônia. Ele estudou no Colégio dos Jesuítas, no Espírito Santo, e depois em Salvador, quando definiu a vocação para o sacerdócio. Pregou a liberdade dos índios; foi acusado na Inquisição; sofreu nos cárceres do Santo Ofício; foi interrogado e condenado em Portugal, em sentença posteriormente anulada. Poderia, então, voltar aos púlpitos de Lisboa para falar sobre temas políticos. Preferiu Roma. Mas, desencantado em ambas as capitais, voltou ao Brasil, e para a Bahia, iniciando a publicação de seus sermões.
Sim, trata-se do imortal Padre Antonio Vieira (1608-1697). Ele escreveu cerca de 200 sermões, mais de 500 cartas e muitos estudos políticos e literários. Como reconhecem os historiadores, o estilo dos sermões é brilhante.
No Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, pronunciado em 1656, na Matriz da cidade de Belém, ele diz que num dia tão alegre como o da Páscoa, “em que pela gloriosa Ressurreição de Cristo, redentor nosso, se revogou com a mesma glória a antiga sentença de morte fulminada contra Adão e Eva, digna coisa de admirar é que nem nas filhas de Eva, nem nos filhos de Adão, se achem feitos de alegria. Amanheceu o Sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão. (...) Prometendo Cristo Redentor nosso aos Escribas e Fariseus, em lugar de um milagre do Céu, que lhe pediam, outro milagre maior na Terra, disse que assim como Jonas estivera três dias e três noites no ventre da Baleia, assim ele havia de estar no coração da Terra outros tantos dias e noites, que foram os que se contaram desde a tarde de sua sagrada morte, até a manhã de sua gloriosa Ressurreição”.
O sermão conta que o ouro é o flagelo para os índios e os pobres e que a salvação da alma é o único e verdadeiro bem.
O que mais seria preciso dizer nesse domingo que assinala o retorno da morte para a vida?
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 08.04.2007.
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