Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
Um novo acesso à justiça :
René Ariel Dotti
Na última terça-feira a Ordem dos Advogados do Brasil, pela subseção de São José dos Pinhais, inaugurou a sede própria que abrange também municípios vizinhos. Um destaque especial marcou o evento: foi a escolha do nome do notável criminalista Élio Narezi para designar o local.
A diretoria da subseção tem à frente a advogada Helena Maria Regis Araújo, sendo vice-presidente Gilvan Antonio Dal Pont. Os demais cargos são ocupados por Rosana Maria Vidolin Marques, José Carlos Alves Silva e Augustinho da Silva. O empenho do presidente da OAB-PR, Manoel Antonio de Oliveira Franco, em valorizar amplamente o fato, deve-se a duas razões.
A primeira delas é a criação de mais um endereço público considerando-se que o advogado é imprescindível à administração da justiça, como declara a Constituição. E o conjunto de municípios que têm interesses a serem atendidos em São José dos Pinhais é bastante considerável, compreendendo questões oriundas de Tijucas do Sul. Por outro lado, os municípios de Mandirituba, Pien e Agudos do Sul estão vinculados à comarca de Fazenda Rio Grande. Na comarca de São José dos Pinhais funcionam 2 varas criminais, 2 cíveis, 1 Vara de Família, da Infância e da Juventude e de Registros Públicos, além de 3 varas de Juizados Especiais, todas elas com imensa carga de processos.
A segunda é a justa homenagem que se presta ao causídico Élio Narézi, falecido há pouco tempo. Ele dedicou a sua vida profissional aos melhores projetos de garantia dos Direitos Humanos, da preservação da ética e do fortalecimento da Ordem dos Advogados. Foi presidente da seccional paranaense por dois mandatos. A seu respeito e com a pena molhada na saudade eu escrevi um artigo publicado em periódico especializado. E que agora é revisto no essencial.
Era o tempo em que trabalhávamos no Edifício Azulay, na Alameda Dr. Muricy, quase esquina de onde era possível ver o Cine Luz. Havia o desfile de sombrinhas e guarda-chuvas quando as águas que caíam do céu misturavam-se com a torrente produzida pelo rompimento de diques subterrâneos do rio que passava por baixo da Praça Zacarias. Ou talvez pela publicidade que aparecia no fronstispício, a face voltada para a Rua XV e onde se lia com destaque: audilex – Advogados e Contadores. Ali mesmo, ainda estudante de Direito, iniciei meu estágio no escritório do criminalista Salvador de Maio, conduzido pelo generoso convite de Élio Narézi. E ali fiquei algum tempo. Anos mais tarde mudamos de endereço mas não de vizinhança com alguns colegas e amigos, entre eles, o Élio.
Correu um pouco mais o tempo. Lembro a despedida do advogado e professor Vieira Neto (1912-1973). Foi o colega e amigo Élio Narézi quem falou por todos nós, lendo o poema que Ethel Rosemberg escreveu para os filhos dias antes de sofrer a execução da pena de morte. Ela e o seu marido, Julius, foram condenados e morreram pelo preconceito e a intolerância da Justiça e do Governo norte-americanos, nos anos 50, sob a acusação da prática de espionagem em favor da Rússia. Com aquela leitura, Narézi prestou homenagem à herança de dignidade deixada pelo mestre Vieira aos seus filhos, pois o bâtonnier também fora vítima de obstinado preconceito ideológico. Narézi não foi um perseguido político. Mas lutou em favor deles e também contra muitas formas de intolerância e preconceito, fazendo da banca uma lição de humanismo e um apostolado de resistência. Por isso lembro o poema: "Aprendereis um dia, meus filhos, aprendereis / Por que dormimos sob a terra / O livro meio lido, o canto interrompido / E a tarefa inacabada / Não choreis mais, meus filhos, não choreis./ O mundo inteiro conhecerá o porquê da mentira/ E da calúnia, o mundo inteiro conhecerá / Nossos prantos e nossa pena. Alegre e verde, meus filhos, alegre e verde /Será o mundo sobre nossos túmulos. As matanças acabarão, a terra florescerá /Na paz fraternal./Trabalhai, construí, meus filhos, um monumento /Ao amor, à alegria, ao valor humano /E à fé que salvaguardamos / Para vós, meus filhos, para vós".
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo".
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