Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Páginas da história do Paraná   :

René Ariel Dotti

Com o número 480, deste mês de fevereiro, a revista Paraná em Páginas alcança a significativa marca de quarenta anos de existência com a vibração, a periodicidade e a coerência mantidas pelo seu fundador, provedor,  diretor- geral e principal redator: o jornalista Candido Gomes Chagas.       

    O editorial do primeiro número, que chegou às bancas em março de 1965, afirma que a revista não tinha “passado para invocar” mas destaca “a possibilidade de lembrança do que tem sido a atividade jornalística daqueles que se entusiasmaram pela sua confecção e aparecimento”.

    Na comemoração dos 40 anos, Candinho lembra o processo político contra os jornalistas da Ultima Hora acusados de crimes contra a segurança nacional. A notícia completa com a observação: “Ambiente pesado e tudo muito complicado para um empreendimento jornalístico surgir e ganhar a confiança de todos para a desejada consolidação como novo veículo de comunicação”. 

    O projeto de oferecer aos leitores um repertório mensal de informações, notícias e reportagens sobre atos e fatos da cidade, do estado, do país e do mundo manteve-se fiel ao cronograma e aos seus objetivos. Analisando personagens da administração pública, da política, do Judiciário, do esporte e outras atividades sociais, o Candinho tem sido um repórter do seu tempo e um publicista dos ideais do bom profissional: a informação correta, a crítica fundada e o elogio adequado. Pode-se afirmar, sem exagero, que ele encarna a imagem talhada por Ruy Barbosa (1849-1923): “Cada jornalista é, para o comum do povo, ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático da democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado” (Projeto e esperanças).       

    Ao tempo do primeiro número os desembargadores  Ernani Guarita Cartaxo e Edmundo Mercer Júnior eram empossados na presidência e vice-presidência do Tribunal de Justiça, em concorrida solenidade. Ângela Vasconcelos era a garota de Curitiba  desfilando nas passarelas brasileiras pela conquista de Miss Brasil. Bilac Pinto e Auro de Moura Andrade eram eleitos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Leonel Brizola sofria nova restrição no exílio: o governo uruguaio determinou que ele ficasse em ponto bem distante da fronteira com o Brasil.  Paulo Pimentel e Bento Munhoz da Rocha Neto se preparavam para disputar o governo do Paraná.  Antônio Ferreira Ruppel assumia a presidência da Assembléia Legislativa com as mutilações da liberdade parlamentar impostas pelo Ato Institucional n° 1, de 9 de abril de 1964.  E o município de Telêmaco Borba comemorava o primeiro aniversário.

    A revista exibiu nas quatro décadas um grande volume de fotos e documentos. Para Candinho o arquivo é “o pulmão que valoriza as reportagens”, enquanto os textos funcionam como retrovisores de um passado próximo ou distante.             

    A crítica aos abusos e à corrupção administrativa mostrou as virtudes  da coragem e da cidadania, postas a serviço da população. A reiterada denúncia contra a utilização argentaria do sistema de radar na cidade mostra que a ira santa repercutiu na consciência popular e influenciou parlamentares como o vereador Ney Leprevost que disse confiar nas medidas que o prefeito Beto Richa vai adotar contra a indústria das multas.      

    Edições históricas do futebol paranaense e brasileiro revelaram a paixão do torcedor. Embora coritibano desde criancinha   o jornalista  jamais deixou de considerar a importância e o valor de outras equipes. As reportagens sobre a vida, paixão e morte de clubes como Savóia, Água Verde, Ferroviário, Colorado,  Britânia, Palestra Itália e Pinheiros são talhadas no material do tempo com o cinzel da nostalgia.   

    Como esquecer, por exemplo, a antológica composição de texto e imagem sobre Alfredo Gotardi, o símbolo do Atlético? A fantasia venceu a realidade quando a crônica e os biógrafos concederam ao goleiro Caju o título de “majestade do arco”.

    Ou seria, também, a “fortaleza voadora” de que a minha infância tanto ouvira falar? 

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 03.02.2005.


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