Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
A Lapa e a consolidação da República :
René Ariel Dotti
A legendária cidade e a memória cívica do Paraná comemoraram ontem os 111 anos do episódio que ajudou a consolidar a incipiente República brasileira e que ficou conhecido como O cerco da Lapa.
Em 4 de janeiro de 1894, os federalistas estabeleceram planos para a conquista do território paranaense. Cinco dias mais tarde ocuparam Curitiba, após fraquíssima oposição. Depois dominaram Tijucas, sitiada por 1.800 homens de Aparício Saraiva, admitindo o comando invasor em boletim que “os inimigos bateram-se valentemente”. O cerco completou na Lapa, provocando os combates que marcaram a resistência chefiada pelo General Antônio Ernesto Gomes Carneiro (1846-1894), enfrentando as forças conjugadas de Gumercindo e Aparício Saraiva, Laurentino Pinto Filho, Torquato Severo e Juca Tigre. Era um contingente de dois mil homens.
Entre 17 de janeiro a 10 de fevereiro de 1894, os maragatos (termo castelhano pejorativo que identificava os federalistas) foram interrompidos na marcha para São Paulo rumo ao Rio de Janeiro para se oporem a Floriano Peixoto (1854-1895). Segundo o historiador Ruy Wachowicz, o Paraná teve um “papel decisivo e de relevo nessa revolução sangrenta. Proporcionou ao governo central do Marechal Floriano, na época o símbolo da República e da legalidade, o tempo suficiente para a aquisição no estrangeiro de uma esquadra, bem como para a organização, em São Paulo, das forças necessárias para deter e repelir o avanço federalista. A prolongada resistência da Lapa foi decisiva na concretização desses planos e impediu o ataque ao Estado de São Paulo, o qual desta forma teve o sossego e o tempo necessário para mobilizar-se” (História do Paraná, 1988, p. 165).
Entre muitos, dois aspectos ficaram indeléveis na história do Paraná e do Brasil. O primeiro, foi a intimorata defesa da cidade e dos ideais republicanos. Lembra o Professor David Carneiro que na manhã do dia 22 de janeiro, os federalistas mandaram três homens falar com o então Coronel Carneiro e propor-lhe as condições de rendição. E foram recebidos a bala, antes de poderem falar. No dia 7 de fevereiro, Carneiro é ferido ao socorrer o patriota Henrique dos Santos. Levado para uma casa amiga, recebe a visita do Dr. João Cândido Ferreira, médico e sábio professor, capitão do cerco da Lapa, avô materno de Francisco Cunha Pereira Filho. Prossegue a narrativa do mestre David Carneiro: Quando o Dr. João Cândido, após examinar a ferida nas costas e dizer que era um coágulo de sangue, Carneiro resistiu mais uma vez: “Qual; é fígado; é rijo demais para ser um coágulo de sangue.” E acrescentou com estoicismo: “Mas seja qual for a gravidade do ferimento, o Dr. dirá que o ferimento é leve”. E, no dia 9, repetia aos oficiais que lhe iam pedir ordens que somente haveria uma: “Resistir a todo transe”. Ele faleceu naquele dia, num final de tarde, após um desmaio prolongado e de se sentir reanimado com os tiros que ouvia. (O Paraná na história militar do Brasil, 1995, p. 277).
O segundo aspecto foi o reconhecimento dos invasores à coragem dos resistentes. Segundo a ata de 15 de fevereiro de 1894, lavrada no Quartel General da 2ª Brigada, os generais Gumercindo Saraiva, Antonio Carlos da Silva Piragibe e Laurentino Pinto Filho, autodenominados “representantes do governo provisório da República dos Estados Unidos do Brasil”, aceitaram a capitulação dos comandantes e oficiais das brigadas, concedendo-lhes “todas as honras de guerra, atendendo a forma heróica porque defenderam a praça, rendendo-se apenas por circunstâncias especiais supervenientes, sendo-lhes entregues todas as armas, munições e tropas”, além da liberdade e transporte dentro do Estado, para, com seus bagageiros, tomarem o destino que lhes conviesse (cf. David Carneiro, obra citada, p. 280).
Os heróis da Lapa – como são lembrados em documentos, objetos, livros e na tradição oral - souberam lutar e resistir, prolongando os seus exemplos de vida para muito além da morte física.
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 10.02.2005.
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