Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

A tomada de Monte Castelo :

René Ariel Dotti

A conquista de Monte Castelo foi uma das vitórias inesquecíveis da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial quando as forças aliadas (EUA, Rússia, Inglaterra e a França), com a participação de nosso país, derrotaram a ideologia e o terror do eixo nazi-fascista representado pela Alemanha e a Itália e para o qual aderiu o Japão.

    Na última terça-feira, a Casa do Expedicionário, em Curitiba, promoveu a solenidade comemorativa dos sessenta anos daquele feito heróico. Foram muitos os homenageados: os vivos e os mortos, presentes em saudade e amor. Não sendo possível a referência nominal a tantos combatentes, preferi valer-me do depoimento de uma testemunha que assistiu o combate: o jornalista e escritor Joel Silveira. Na condição de correspondente de guerra ele redigiu uma crônica antológica que merece transcrição parcial: “Vejo, através da luneta, os nossos pracinhas agachados lá na frente, grupos aqui e ali rastejando em direção ao cume de onde atiram, com suas curtas e sinistras gargalhadas, as terríveis ‘lurdinhas’ alemãs. Agora mesmo um deles encostou-se num pedaço de muro destruído e aponta sua Thompson para qualquer lugar lá em cima. Os morteiros nazistas rebentam nas faldas do sul, mas nossa artilharia reinicia seu canhoneio sistemático e certeiro, como fizera toda a noite. Escuto os silvos das granadas sobre nós, vejo-as explodirem lá adiante, numa coroa de fumaça que cai sobre o Castelo como uma auréola de chumbo”.

    E prossegue narrando lances emocionantes:

    “No dia 21 os brasileiros fincaram pé no cume do Castelo, passaram a noite lá em cima num trabalho de vigilância, e pela manhã começaram a encompridar suas linhas telefônicas. Os nazistas, surpreendidos com a manobra de envolvimento do Regimento Sampaio, naturalmente organizavam os seus próximos contra-ataques. Em Abetaia, o Tenente Kleber e seus homens varriam o terreno, espremidos entre as minas e as armadilhas. E as armadilhas se disfarçavam nas coisas mais inocentes: num pedaço de palha, numa casca de granada esquecida no chão, numa caneta-tinteiro, no vão de uma janela, dentro de um armário. Ainda hoje deve existir, lá em Abetaia, aquele minúsculo galho de árvore, pendente de um monte macio de feno, diante do qual os pracinhas passam sem coragem de pegar. 'Aquilo pode ser a passagem para o outro mundo’, me disse o Terceiro-Sargento Amadeu Boanerges Cardona Pereira, um pernambucano do Recife”. (“A história da conquista de Monte Castelo”, publicada no livro Grande Crônica da Segunda Guerra Mundial, RJ, Seleções do Reader’s Digest, 1969, vol. 3°, p. 289 e 293).

    A FEB era a famosa divisão de infantaria que, sob as ordens do general Mascarenhas de Morais, foi mandada para a Itália em 1944, em face da declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha (1942). O seu intimorato roteiro abrangeu um saldo muito positivo de combates, na conta corrente das batalhas, em 239 dias de ação contínua, desde 6 de setembro de 1944 até 2 de maio de 1945. Camaiore, Montese foram, também, outros sítios conquistados.

    Na semana passada, uma notícia vinda Londres informou que o governo britânico vai investir o correspondente em libra esterlina a trinta milhões de dólares para a conservação de objetos e documentos de um espaço subterrâneo e que funcionou de setembro de 1940 até abril de 1945: o Cabinet War Rooms.  Há poucos anos o bunker, que reunia comandantes militares e o Primeiro Ministro Winston Churchill com salas de reuniões, mapas, mesas de operação e de telefonia, quartos, corredores, máscaras contra gás e outros petrechos foi aberto ao público e passou a integrar o roteiro turístico da capital inglesa. Um número imenso de pessoas, de todas as idades, nacionalidades e convicções, desfila diariamente perante as referências físicas da guerra e tem acesso a muitas imagens e documentos, além da identificação dos heróis.

    Existe, ali naquele país como em outros da Europa, o culto à boa memória nacional.

    Infelizmente, aqui, no Brasil, não ocorre o mesmo.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 24.02.2005.


Rua Marechal Deodoro, 497 . 13º andar . 80020-320 . Curitiba . Paraná
Tel.: (41) 3306-8000 . Fax: (41) 3306-8008