Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
A sociedade dos jornalistas vivos :
René Ariel Dotti
Segunda feira, os primeiros e os últimos jornalistas, colaboradores, fotógrafos e técnicos que viveram a experiência e o prestígio do Diário do Paraná reuniram-se para comemorar os cinqüenta anos de nascimento de um dos mais vigorosos jornais de seu tempo.
No dia do aniversário de Curitiba (29.3.1955), surgiu a primeira edição estadual daquele órgão dos Diários e Emissoras Associados, da cadeia de Assis Chateaubriand (Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, 1892-1968) que construiu a imensa geografia do poder com os meios de comunicação cravados em vários pontos do território nacional. Eram jornais diários, revistas, emissoras de rádio e televisão, agências noticiosas e de serviços. Ferrenho anticomunista, defensor apaixonado do capital estrangeiro, Chateaubriand vergastou o movimento nacionalista favorável ao petróleo. O prestígio no Congresso Nacional (duas vezes senador), no campo diplomático (embaixador na Inglaterra), no mecenato artístico e nas ruidosas campanhas jornalísticas contra idéias, grupos ou pessoas, marcaram a sua existência. Algumas atitudes eram próprias de um “milionário excêntrico” como anota Fernando Morais na biografia Chatô, o rei do Brasil. A saga de Chateaubriand lembra a história do magnata americano William Randolfh Hearst encarnado pelo gênio de Orson Welles (1915-1985) na interpretação de Charles Foster Kane, imortalizado no filme Citizen Kane (1941).
A vida do Diário do Paraná é contada pela tradição oral e pela palavra escrita. Uma ampla pesquisa do professor e jornalista Carlos Danilo Costa Cortes, que exerceu as mais variadas funções no jornal dirigido nos anos de fastígio pelo “seu Adherbal” (Adherbal Stresser), resultou no livro, O Diário do Paraná – na imprensa e na sociedade paranaenses (edição do autor, 2000, com 351 páginas). Danilo conta o itinerário do matutino da fundação ao declínio. A publicação é uma valiosa contribuição ao jornalismo paranaense tão carente de obras históricas.
A reunião comemorativa do cinqüentenário, sem a pompa e a circunstância financiadas pelo poder social, político ou econômico teve, no entanto, a comunhão da boa memória do tempo em que o jornal era feito nas redações e as notícias da cidade, do estado, do país e do mundo eram capturadas pela técnica artesanal. Certos fatos eram esculpidos com o cinzel da esperança porque o texto do jornalista e a opinião do jornal podiam modificar a rotina do cotidiano e abrir caminhos nos espaços da realidade e da fantasia. Havia no prédio da Rua José Loureiro, desde o começo da tarde até o final da noite e uma parte da madrugada, um ambiente que lembra até hoje o carpe diem (“aproveita o momento fugaz”) que uma das Odes de Horácio consagrou para os sentimentos de emoção, amor e liberdade.
No restaurante Cascatinha, na noite de segunda-feira, reuniu-se uma sociedade dos jornalistas vivos. A ausência de amigos que já partiram e de outros com endereço desconhecido não impediu a recordação de fatos, atitudes e histórias que traduziam a lúcida irreverência e a bendita contradição quando nacionalistas na redação e nas oficinas se insurgiam contra a ideologia do próprio imperador das comunicações. Havia adoráveis anarquistas, sedutores comunistas, redivivos integralistas, combativos adesistas, entusiasmados democratas, uma composição de chiaro-oscúro a sugerir os personagens e as cenas do filme de Peter Weir, A sociedade dos poetas mortos.
O Benjamin Steiner, que revolucionou espaços e imagens com o milagre da diagramação; que colocava tinta preta nos telefones e chamava alguém para atender a ligação; que colava espora de papel nos sapatos das pessoas; que dançava em cima de uma mesa, era o nosso John Keating, o professor de Inglês.
Com uma vantagem. Enquanto Keating foi expulso pela intolerância dos dirigentes da Welton Academy, o conservador colégio americano, Benjamin permaneceu em nossas salas de aula.
Para continuar nos ensinando a aproveitar o momento fugaz.
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 31.03.2005.
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