Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Falando sobre um jovem repórter :

René Ariel Dotti

  Além dos temas da liberdade de informação e dos abusos que em nome dela são cometidos, existe um fenômeno subjacente ao trabalho rotineiro do bom jornalista que vive as emoções da colheita da informação e tem o compromisso de transmiti-la com fidelidade: é a sensação de que o seu texto pode influir para formar decisões e orientar condutas. 

    No trabalho do profissional ou colaborador da imprensa, rádio e televisão deve existir não somente o vínculo com o fato a ser comentado ou simplesmente registrado mas, ainda, a afinidade intelectual com o assunto, além da boa e leal interação com o entrevistado.

    Em inúmeras entrevistas que concedi em função de atividades de advogado e professor tenho percebido as dificuldades enfrentadas por muitos jornalistas inexperientes. A falta de conhecimento do assunto a ser tratado, a dispersão com perguntas desconexas e a ligeireza na obtenção das respostas são alguns exemplos. Mas existem outras situações também relevantes. Elas podem acarretar, por si mesmas, a frustração da entrevista pelas incertezas, dubiedades e omissões do material divulgado. A timidez em não admitir o melhor conhecimento do objeto abordado e a omissão em exaurir a pesquisa para depurar a notícia e as primeiras impressões constituem, na minha avaliação, dois aspectos que merecem a maior atenção nas escolas de jornalismo e na convivência da redação com os colegas mais experientes e os editores.

    O jovem repórter não deve ter o constrangimento de admitir para o interlocutor que não tem o domínio do assunto da entrevista. Afinal, num universo de inesgotáveis temas propostos pela Civilização e a Cultura dos povos e de infinitos limites quanto aos saberes humanos, ninguém pode conhecer tudo. Nem mesmo os especialistas dedicados ao estudo e à reflexão de certos problemas na rotina de suas funções.  Daí a interessante e bem humorada expressão: especialista em generalidades. Sob outro aspecto, o repórter tem a obrigação de solicitar ao entrevistado que melhor esclareça a resposta quando não entendê-la. Existe, aí, um momento embaraçoso: o jornalista, para não dar a impressão de que está por fora ou que não entendeu o que foi dito, deixa de pedir esclarecimentos. Ele supõe, erradamente, que a demonstração do interesse em esclarecer irá prejudicar a sua auto-estima ou revelar um despreparo que contraria a presunção do poder inerente ao exercício de sua atividade.  Nesse sentido, nada melhor que a lição do Manual de Redação e Estilo, de Luiz Garcia, no verbete comportamento: “Importante: é sempre melhor confessar ignorância ao entrevistado do que, mais tarde, ao chefe, na redação” (Globo, 17ª ed., 1993, p. 12). A sinceridade pode evitar o  descompasso entre a pergunta, a resposta e a publicação.

    Não ouvir o outro lado a respeito de fato ou informação que lhe diga respeito é uma das omissões intoleráveis e uma grave violação do dever ético quanto à veracidade da notícia, reportagem ou outra atividade jornalística. Há um grande e reiterado número de decisões de juízes e tribunais responsabilizando o meio de comunicação e o redator da matéria, ou ambos, quando não colheram a versão de pessoa referida ou não demonstraram a tentativa para ouvi-la. Poderá haver condenação tanto criminal quanto civil pela ofensa à honra acarretando os processos com ameaça de prisão, multa e indenização.

    A aproximação entre o repórter e o entrevistado pelo diálogo espontâneo facilita o trabalho de ouvir e registrar além de estimular a relação de conhecimento para novos encontros.

    É importante que o jovem repórter procure saber as qualificações pessoais da fonte.  Atualmente com os progressos da tecnologia e da informática é fácil obter dados sobre a personalidade do entrevistado e, assim, investigar seus títulos e outras formas de apresentação social e profissional. E também saber que não existe a sacralidade da fonte que impeça a pergunta motivada pelo interesse público.

    Mesmo que a resposta seja omitida ou desviada.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 14.04.2005.

 

 


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