Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
A globalização e a perda de identidades culturais (II) :
René Ariel Dotti
O maior intérprete e representante do Renascimento foi Leonardo da Vinci (1452-1519), artista, arquiteto, inventor e escritor italiano. Ele cunhou a frase que se tornaria paradigmática de um novo tempo de liberdade e criação: “O homem é a medida de todas as coisas”.
O imortal florentino, que recebeu a proteção de Lorenzo de Medici, viveu em Milão entre 1482 e 1499, onde pintou o afresco da Última Ceia. Em Florença, entre 1503 e 1506, produziu a Mona Lisa. Nos estudos científicos, prenunciou a invenção de peças modernas como o escafandro, o helicóptero e o pára-quedas. No pensamento e na arte, Da Vinci inaugurou o Antropomorfismo, isto é, a visão de mundo ou doutrina filosófica que, buscando a compreensão da realidade circundante, atribui características e comportamentos típicos da condição humana às formas inanimadas da natureza ou aos seres irracionais.
Outros visionários daquela redescoberta do homem foram Filippo Brunelleschi (1377-1446), Piero della Francesca (1406-1492), e Michelangelo Buonarroti (1475-1564). O primeiro, como o mais notável arquiteto da Renascença e escultor, criou a cúpula do Duomo de Florença e concebeu a perspectiva, artifício geométrico que cria a ilusão de tridimensionalidade numa superfície plana. O segundo, com afrescos notáveis como a Ressurreição de Cristo e a mistura de figuras geométricas e cores intensas. E o último, escultor, pintor, poeta e arquiteto, concebeu e materializou a Pietá e Davi e pintou A Sagrada Família. Em 1508 começou a pintar, sozinho, os afrescos do teto da Capela Sistina, trabalho que durou quatro anos. Em 1538 pinta a parede do Juízo Final, na mesma capela. Oito anos após, projetou a cúpula da Basílica de São Pedro.
Sob tal perspectiva, isto é, do ser humano como a medida de todas as coisas, o novo século poderá ser o cenário para a retomada do Humanismo como movimento filosófico para o refinamento da ciência e da tecnologia e de um novo Renascimento, como caminho de restauração das expressões mais generosas das artes, das ciências e das letras.
Sem ignorar as conquistas científicas e tecnológicas da globalização deve-se reconhecer que tal fenômeno - assemelhado por sua natureza e método à massificação e opressão religiosas medievais - está gerando os efeitos maléficos de colonização e destruição da memória e das manifestações culturais populares. O toque da criação individual é sacrificado pelos efeitos ruinosos da epidemia das coisas prontas. E um dos remédios contra isso é a preservação e o estímulo das fontes e expressões das culturas locais.
A Academia Paranaense de Letras, sob a liderança vigorosa e lúcida do historiador Túlio Vargas, está desenvolvendo um projeto de estímulo à criação de novas Academias de Letras em cidades estratégicas do interior que possibilitem a fusão de experiência regional nesse universo difuso em que se constitui a nossa realidade histórica e social. A iniciativa já deflagrou a criação de 16 agremiações que vêm se reunir à Academia de Artes, Ciências e Letras de Londrina, a mais antiga do hinterland. Servem-lhe de apoio logístico as universidades e as escolas de ensino superior que abrem suas portas para um processo de integração de programas e atividades científicas, artísticas e literárias em harmonia com os progressos tecnológicos.
A iniciativa promove o desenvolvimento das culturas regionais, compreendida a expressão cultura em sua mais generosa acepção. E é justamente esse o mérito da iniciativa da Academia Paranaense de Letras. Há um incomensurável terreno para ser lavrado com a inteligência dos trabalhadores culturais em cidades que têm história, identidade, valores e esperanças.
Domingos Pellegrini, na abertura de seu romance Terra vermelha, bem definiu uma parte desse universo, visto pelo caderno de poesia da Vó Tiana: “Põe na mão, olha bem, olha / e sabe porque então / esta terra é assim vermelha?/ É vermelha de paixão!”.
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 16.06.2005.
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