Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
Universo de sentimentos :
René Ariel Dotti
Há determinadas crises sociais, econômicas, políticas e culturais que provocam o sentimento de anomia. Certos problemas, coletivos ou individuais, acarretam o sentimento de desesperança. Mas existem incontáveis situações que, embora rotineiras na vida, provocam outro estado de alma. Elas podem ser definidas por uma só palavra: melancolia.
Essas reflexões foram aviventadas em minha recente visita à exposição Mélancolie – Génie et folie en Occident (Melancolia – Genialidade e loucura no Ocidente).
Um imenso e organizado conjunto de pensamentos, objetos, fotografias, esculturas, desenhos e pinturas ilustram o tema para os milhares de freqüentadores diários das galerias do Grand Palais, de Paris.
O texto de introdução ao evento lembra que a melancolia é tema de toda a história ocidental, desde a Antiguidade até os dias correntes. Sob variadas designações e formas de aparecimento, o fenômeno nunca deixou de interessar aos médicos, filósofos e artistas, além de inúmeros pesquisadores e estudiosos das ciências humanas e sociais.
Profundamente ligado às artes plásticas, o assunto produziu uma rica iconografia que exprime doçura e violência, prostração e fúria, sonhos e desespero. Com mais de 200 obras, a exposição oferece um notável panorama de realidade e fantasia.
No início do século 19, a melancolia foi objeto de estudos especializados dos médicos. Procurando isolar e distinguir outros conceitos adotados ao longo dos séculos, o médico Jean-Étiene Dominique Esquirol propôs uma nova denominação para esse estado psíquico: lipemania. Para ele, o vocábulo melancolia, consagrado na linguagem comum para traduzir a tristeza habitual de certos indivíduos, deveria ser deixado aos moralistas e aos poetas que não são obrigados, em suas obras, ao rigor das palavras como se exige dos médicos. E sintetizou: “Não é mais uma dor que intimida, que grita, que chora, é uma dor que se cala, que não tem lágrimas, que é impassível”.
Em uma de suas imortais peças de teatro, Shakespeare (1564-1616), confessou: “A minha melancolia não é a do erudito, que é emulação; nem a do músico, que é fantasiosa; nem a do cortesão, que é orgulhosa; nem a do soldado, que é ambiciosa; nem a do advogado, que é política; nem a da mulher, que é bela; nem a do amante, que é tudo isso. É uma melancolia toda minha, feita de muitos elementos, extraídos de muitos objetos. É, na verdade, a variegada contemplação de minhas viagens, em que o meu freqüente ruminar me envolve numa gratificante tristeza”. Shakespeare (Como gostais, ato IV).
Olhando e pensando, ouvindo e sentindo pelas galerias do museu francês as imagens de tristeza reveladas em telas como as de Van Gogh (1853-1890), Delacroix (1798-1863), Théodore Géricault (1791-1824), Edward Hopper (1882-1967), em esculturas e trechos de prosa e poesia, eu pensei nas causas de tristeza de meu país e nas lembranças pessoais.
Voltando à cidade conheci a exposição de Guita Soifer, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (MUMA) que trata do mesmo e infinito tema. E com o sugestivo título: Objetos de melancolia.
São fotografias de passado distante, rastros de viagem, peças de roupa velha, coisas reanimadas pela sensibilidade da artista para quem a melancolia não precisa ser definida; basta ser sentida. “Mas não como tristeza”, adverte. Distribuídos em amplo espaço de uma enorme sala, propositadamente vazia, os objetos compõem lembranças simples que identificam os dois tipos da matéria prima da composição estética: tempo e memória.
Para o crítico de arte e curador, Agnaldo Faria, a instigante produção tem como referência essencial “o tempo da vida que é também o tempo da morte; que subjuga indistintamente todos os seres e as coisas”. E para o escritor e jornalista José Castelo, “uma palavra sintetiza o trabalho de Guita Soifer, e essa palavra me atropela: assombro. E o que sinto: espanto”.
Na rotina dos dias posso ver e sentir que a melancolia é, também, um atalho para um novo tipo de encontro. Não apenas com o passado. Nem com a tristeza ou com a loucura.
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 24.11.2005.
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