Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Variações sobre a morte  :

René Ariel Dotti

Miguel Reale (1910-2006)

            Há alguns anos, referindo-se à perda física de Dona Nuce, a companheira de um longo e feliz casamento, o mestre Reale disse que o mundo passou a ter outro sentido, “martelando em meus ouvidos” a recordação dos versos de Giacomo Leopardi: “... a un tempo stesso / Amore e Morte / Ingenerò la sorte”.  E  pouco depois publicou, em O Estado de São Paulo, um artigo antológico: “Variações sobre a morte”.  Coincidentemente o fez em 12 de junho, no Dia dos Namorados. A data, a homenagem e o escrito revelaram a imensa condição humana do filósofo, professor, jurista, advogado, administrador, poeta, em síntese, um ser de múltiplas camadas.

            No momento em que a nação e o país deploram a derradeira viagem desse notável brasileiro, inventariando suas obras, atitudes, idéias e esperanças, eu retomo a leitura das “Variações”. Houve, ao mesmo tempo, distância e proximidade da morte como testemunharam seus últimos momentos. Ele acabara de assistir pela televisão o jogo de futebol do seu  Palestra Itália. Reclamou que foi um “joguinho porcaria, que ainda perdeu e teve muita briga”. O ataque cardíaco veio na seqüência, com o gesto de tirar a meia para dormir. Mas não em busca do sono coberto pelo manto da dúvida, assim como lamenta o infeliz  príncipe da Dinamarca: “Ser ou não ser; eis a questão./ Será mais nobre sofrer na alma / Pedradas e flechadas do destino feroz/ Ou pegar  em armas contra o mar de angústias - /E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;/ Só isso. E com o sono – dizem – extinguir / Dores do coração e as mil mazelas naturais” (Shakespeare, Hamlet, ato III, cena I).

            Ao contrário, o inesquecível Miguel Reale habitou sempre num mundo de convicções alimentadas pelo pensamento lúcido que transformava as incertezas em nascentes para o conhecimento do homem, do mundo e da vida.

            Em suas “Variações sobre a morte” ele observa o paradoxo da existência humana arrematando que “nada é tão certo quanto a morte, sobre cujo significado, no entanto, reina a incerteza, a começar pela afirmação de que ela representaria apenas um fim material inevitável. Norberto Bobbio, com cujas idéias tantas vezes coincido, pertence à espécie infeliz dos homens para os quais, após a morte, não há senão il buio, a escuridão. Creio, ao contrário, - e é o amor a fonte primordial dessa crença, vencedora de todas as perplexidades racionais – creio que a alma se desprende do corpo e passa para outra forma de existir, isenta de materialidade e, como tal, mais pura”.

            Em certa passagem o texto mostra o absurdo da imortalidade física, assim como apareceria no romance de José Saramago, o “estado de vida suspensa” ou da “morte parada” quando ninguém morria em determinado país (“nem ao menos um caso para amostra”). O extraordinário fato gerou  inúmeros problemas para muito além da insolvência das agências funerárias (As intermitências da morte).

            Tem razão o nosso Reale ao afirmar que “sem a morte não teria significação a vida. Imagine-se o homem imortal, para quem infância, juventude, maturidade e velhice seriam palavras desprovidas de sentido, um tempo sempre igual, no qual não haveria lugar nem para a esperança, nem para a saudade”.

            Esse foi - e continua sendo - o homem capaz de ensinar também o direito sobre as coisas corpóreas, a sucessão de bens materiais, as relações afetivas,  a proteção da vida privada e uma imensa  gama de bens e interesses dispostos no Código Civil de 2002 para cuja feitura ele foi o coordenador e o principal ativista num projeto de longa discussão.

            Certamente na lembrança dos dias e das noites com Dona Nuce, a família e o mundo das idéias que construiu, o mestre já prenunciava uma outra vida além da morte: “ Se não descesse sobre meus olhos a luz da fé, na certeza de um futuro reencontro, já bastaria o liame da saudade para endourar de espiritualidade o inexorável fato da morte, libertando-a da escuridão. Embora possa parecer pretensão absurda, talvez se pudesse proclamar: ‘felizes os que amam, que deles é o reino da morte’ ”.

 

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 20.04.2006.

 


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