Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

A violência de Obdulio e a categoria de Zidane   :

René Ariel Dotti

 

1950 foi pior

            Friaça, no início do segundo tempo, abriu o placar naquele 16 de julho de 1950. Brasil 1 x 0 Uruguai. Estava se confirmando o prognóstico geral de que o nosso país seria o grande vencedor da Taça Jules Rimet. No sábado e no próprio dia do jogo, o vestiário foi invadido por políticos que posavam para as fotos com os atletas. Havia cartolas e penetras de toda ordem. Afinal, bastaria um empate para levantarmos o caneco.

            Obdulio Varela acordou às cinco e meia da manhã e foi ver a arrebentação na praia do Flamengo. Caminhou bastante e voltando para o hotel observou algo que mudaria o espírito dos jogadores uruguaios logo mais. Conta Roberto Muylaert, no livro Barbosa - Um gol faz cinqüenta anos, que o centro médio e capitão da equipe viu de relance um jornal recém chegado à banca. A manchete tinha a foto do time brasileiro com a legenda: “Estes são os campeões do mundo”. Era um jornal de média circulação (O Mundo) mas que fomentou uma guerra de nervos que antecedeu a partida. Obdulio ficou furioso e comprou os 20 exemplares expostos, além de outros que arrecadou nas ruas próximas. No hotel forrou o chão dos banheiros dos jogadores que ainda dormiam com a página que estampava a notícia. Com um giz branco escreveu nas portas dos banheiros: “Pisen y orinen en el diário”. O episódio é confirmado por Teixeira Heizer, O jogo bruto das Copas do Mundo, Rio de Janeiro, ed. Mauad, 1977.

            Quando Friaça marcou o gol, Obdulio, gritou com seus 34 anos cheios de força e garra para os companheiros da Celeste Olímpica que a partir daquele momento iriam ganhar a partida. E fez toda a encenação possível. Catimbou e atormentou os atletas brasileiros. Chegou ao extremo de dar um tapa no rosto de Bigode. A este se debitou a falha pelo segundo gol do Uruguai, deixando Gigghia sem marcação. Surgiu do ponta-direita o chute que Barbosa pensara ser meio escanteio, deixando de cobrir o canto. Foi por onde entrou o tiro fraco que emudeceu as 200 mil pessoas que lotaram o Maracanã. Uruguai 2 X 1. Schiaffino havia feito o gol de empate. Por uma estranha coincidência, Roberto Carlos estava arrumando a meia quando deveria marcar Thierry Henry que fez o gol francês no sábado. E Carlos Alberto Parreira, na coletiva após a derrota, afirmou não ter o que falar por não estar preparado para a derrota. “Nós nos preparamos para vencer”. Essa desolação repetiu, quase literalmente, as palavras de Flávio Costa, o técnico de 1950: “Sinceramente, nem eu esperava pelo pior”.

            Nilton Santos, que assistiu o jogo fatídico no banco de reserva, deveria jogar no lugar de Bigode. O resultado poderia ser outro. Daí a sua queixa: “Perdemos por culpa do técnico”. Em entrevista recente, o melhor lateral esquerdo de todos os tempos admitiu que o excesso de confiança dos jogadores comprometeu o desempenho. “O negócio foi o já ganhou”.

            O time desfigurado que perdeu em Frankfurt vinha tendo más atuações ao contrário da seleção de 1950 que empatou com a Suíça (2x2) mas derrotou o México (4x0); Iugoslavia (2x0); Suécia (7x1) e a Espanha (6x1). Na última partida jogou com Barbosa/Augusto e Juvenal/ Bauer, Danilo e Bigode/ Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Também por isso a tristeza nacional foi muito maior. Afinal, a derrota ocorreu em nossa casa, no Maracanã, recém construído para o grande evento.

            Nélson Rodrigues, na última crônica antes da estréia do Brasil na Copa de 1958 (“Complexo de vira-latas”), disse que desde 1950 o nosso futebol tinha pudor de acreditar em si mesmo. “A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar” (À sombra das chuteiras imortais, ed. Companhia das Letras, 1993, p. 51).

             A classe do general Zidane, com elegância e talento, driblando, fazendo passes e lançamentos de categoria e dando um majestoso chapéu em Ronaldo, foi um contraste à performance agressiva do caudilho Obdulio.

            Por tudo isso, 1950 foi pior. Muito pior.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 06.07.2006.


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