Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Vida e obra de Laertes Munhoz - Biblioteca paranista   :

René Ariel Dotti

Biblioteca paranista

    A Academia Paranaense de Letras e o Instituto dos Advogados do Paraná lançaram, há poucos dias, o mais recente volume da biblioteca paranista: Laertes Munhoz – O mestre sublime (Juruá, 2006). A pesquisa e a redação foram realizadas pelo historiador Túlio Vargas. A sua valiosa contribuição para a restauração de fatos e reencarnação de personagens pode ser resumida numa frase: se os documentos oficiais da história do Paraná e de suas figuras mais representativas se perdessem em conseqüência de fato da natureza ou ação do homem, o trabalho de reconstituição começaria pela sua fecunda coleção de biografias.

    Laertes de Macedo Munhoz (1900-1967), inesquecível homem público, paranaense de nascimento, exerceu diversas atividades, tanto sob o plano cultural, como político e social, não descurando do aperfeiçoamento espiritual. Foi um eloqüente orador e sensível cronista do cotidiano.

    Como professor, acompanhou a formação de muitas gerações. A cátedra de Direito Penal na Universidade Federal do Paraná – obtida em memorável concurso de provas e títulos – alcançou repercussão para além dos limites territoriais de nosso Estado. As conferências, palestras, aulas e a participação em debates sobre temas de relevo destacaram o vigor das idéias, a lucidez dos argumentos e a contundente ironia que lembrava Voltaire (rire et faire rire) ao desmontar dogmas e preconceitos com estocadas da razão e bom humor. A inspirada irreverência também compunha muitos de seus momentos alegres. Um delegado de polícia dirigiu-se a ele, que exercia o Ministério Público, contando um feito heróico: “Doutor Laertes, não tibutiei em prender o bandido”. O apoio veio rápido e no mesmo formato: “Isso mesmo. Não tibuteie nunca !”

    Laertes Munhoz irradiava presença e sabedoria nas conferências e eventos científicos, honrando o Estado e a Universidade que tanto venerou. Os seus múltiplos compromissos acadêmicos e profissionais não lhe permitiam comparecimento contínuo na sala de aula. Mas as lições que transmitia, em inesquecíveis encontros com os moços, valiam pela genialidade com que ensinava o Direito e a Justiça com as imagens do homem, do mundo e da vida. Eu sei disso porque durante alguns anos fui seu assistente na disciplina de Direito Penal e assumi a responsabilidade de orientar os alunos que ficavam fascinados ao ouvi-lo como docente e senti-lo como humanista.  E, por uma coincidência reservada pelo destino, tive o privilégio de sucedê-lo na mesma cátedra.

    Devo ao inesquecível mestre o afetuoso apoio para o início de minha carreira no magistério universitário e a convivência funcional até o ano de seu passamento.

    Advogado de grandes recursos, durante muito tempo iluminou a tribuna nos julgamentos do júri, destacando-se não somente nas causas submetidas ao tribunal popular como também nos diversos auditórios forenses do Paraná. Deputado nas constituintes estaduais de 1934 e 1946, destacou-se como notável parlamentar, elevando sobremaneira a Assembléia, principalmente quando exerceu a sua presidência.

    Conduzido aos cargos de Procurador Geral da Justiça e Consultor Geral do Estado, o Professor Laertes Munhoz não se limitou às atividades do Direito. Foi membro do Centro de Letras do Paraná e da Academia de Letras josé de alencar, quando teve oportunidade e o talento para contribuir na formação da obra literária paranaense.

    Suas virtudes de jurista e advogado se agregaram para informar as atitudes liberais em relação a muitos problemas humanos, nomeadamente os prisionais, quando integrou o Conselho Penitenciário do Paraná.

    Essas e outras passagens da existência física e espiritual de Laertes de Macedo Munhoz mostram o legado de humanismo que deixou para os familiares e amigos e a boa memória para os cidadãos. Elas também explicam a antológica frase do crítico e ensaísta inglês, Samuel Johnson (1709-1784): “Não importa como uma pessoa morre, mas sim como ela vive”.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 28.12.2006.

 


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