Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Lembranças de Túlio Vargas :

René Ariel Dotti

Diálogo de uma só voz

            O professor Miguel Reale, que você conheceu pessoalmente, escreveu um afetuoso artigo em memória de sua esposa, falecida poucos dias antes: “Variações sobre a morte”. O texto começa assim: “Depois que Nuce me deixou sozinho em nossa longa/breve história de amor, o mundo passou a ter outro sentido, ficando martelando em meus ouvidos a recordação dos versos de Giacomo Leopardi: ‘...a un tempo stesso / Amore e Morte Ingenerò la sorte”.

            Não foi somente o poeta mas também o jurisconsulto, filósofo e publicista – um pensador sobre a realidade – quem, poucas linhas adiante, disse: “O paradoxo da existência humana é que nada é tão certo quanto a morte, sobre cujo significado, no entanto, reina a incerteza, a começar pela afirmação de que ela representaria  apenas um fim material inevitável. Norberto Bobbio, com cujas idéias tantas vezes coincido, pertence à espécie infeliz dos homens para os quais, não há senão il buio, a escuridão. Creio, ao contrário, e é o amor a fonte primordial dessa crença, vencedora de todas as perplexidades racionais – creio que a alma se desprende do corpo e passa para outra forma de existir, isenta de materialidade e, como tal, mais pura”.

            Veja o detalhe: o artigo foi publicado no estadão, no dia 12 de junho de 1999: o Dia dos Namorados.

            Não lembro se já comentei que, ainda adolescente, eu acompanhava as transmissões dos jogos de futebol pela Rádio Guairacá, na qual você era o vibrante e bem informado locutor. Naquela ocasião, o Colmar Rocha Braga, da mesma equipe, foi proibido de entrar no Estádio Durival de Brito pelas críticas inaceitáveis à administração do Ferroviário. A solução foi genial: a transmissão radiofônica foi feita do alto de uma escada do Corpo de Bombeiros que, colocada atrás do muro, era vista por todos: dentro e fora do campo.  Posso perguntar agora: a idéia foi sua?

            Em muitas reuniões de nossa Academia Paranaense de Letras, que você presidiu sempre com inteligência, lucidez e o entusiasmo moderado dos grandes líderes, eu pensava na harmonia que pode haver entre o pensamento e a ação do agente político, por um lado, e do escritor da História, por outro. E ontem, ao pensar nesse diálogo, eu fui buscar um trecho de seu discurso de ingresso na Academia, há mais de 30 anos, quando você era Deputado Federal. Releio e veja a coincidência: “Aqui o escritor e o político marcam o encontro de tais evidências. O parlamentar acrescenta à sua experiência política os bens culturais que lhe permitem dimensionar o passado, compreender o presente e vislumbrar o futuro; por sua vez, o escritor adquire uma visão crítica mais ampla dos problemas humanos, menos insensível à verdade prosaica do nosso cotidiano”.

            Não foi, assim, por acaso que você atuou com extraordinária eficiência e brilho nesses dois mundos. Dos mandatos parlamentares, federal e estadual, e dos missionários encargos de Secretário da Justiça na equipe do governador Jayme Canet Junior. Essa e outras atividades correlatas notabilizaram o político, enquanto os livros, as palestras e os artigos sobre o nosso Paraná e suas figuras ilustres imortalizaram o escritor. Você conhece bem a síntese de interpretação sobre Goethe, o imortal autor de Fausto:Vida e obra, uma coisa só”. Se os documentos oficiais da história do Paraná e suas figuras mais representativas se perdessem por fato da natureza ou do homem, o trabalho de restauração começaria pelos seus escritos. E encontraríamos em o Indomável Republicano, A última viagem do Barão do Cerro Azul, Conselheiro Zacarias, Senhor Senador – Senhor Ministro (Ubaldino do Amaral), O tribuno da liberdade (Arthur Santos) e outros tantos, os valores cívicos, intelectuais e espirituais que você nos deixou e cuja releitura ensejará outros diálogos como este.

            Quando eu for visitar Lílian e os filhos de vocês, vou lembrar o pensamento inglês que ouvi de um amigo quando perdi fisicamente meu pai: “They don’t die. They go before”. (Eles não morrem. Eles vão antes).

            Penso que isso vai aliviar a dor da distância.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 03.04.2008.





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